Desafio das novas esquerdas: fazer a materialidade importar
Donald Trump recentemente disse que substituirá a liderança do órgão americano responsável por coletar e divulgar dados relativos ao trabalho nos EUA. Segundo o próprio presidente estadunidense, pelos últimos números divulgados serem desfavoráveis. Mais que uma simples mudança de gabinete motivada por um "tresloucado", como pode se inferir das diferentes formas que a mídia retrata o caso, esse gesto joga luz a um fato que a extrema direita já entendeu: é essencial que nosso acesso à materialidade, à realidade, seja tolhido para que ela consiga continuar a implementar suas agendas mundo afora.
Nunca um ser humano foi ou será capaz de chegar à "realidade em si" ou à "materialidade em si". Esse acesso será sempre mediado pelas diversas ferramentas à nossa disposição, quer elas sejam inerentes a nossa biologia, como nossos sentidos; quer elas tenham sido desenvolvidas pelos séculos de avanço na filosofia e nas ciências, como as diversas ramificações do método científico; quer elas sejam instituições necessárias para o mínimo entendimento de como a nossa sociedade está, como no caso de um órgão que compila dados de trabalho de um país em decadência. A existência dessa mediação não nos furta de poder concluir que existem sim, meios de estar mais ou menos conectados à materialidade, pela qualidade da informação que temos a nosso dispor.
A extrema direita lida com o problema da informação de uma forma que fica mais clara a cada dia. Como suas propostas são largamente desfavoráveis à maioria da população, suas ações se voltam sempre contra o acesso e entendimento da informação de maior qualidade. Uma estratégia já avançada é essa usada por Trump: destruir aos poucos as instituições responsáveis por produzir dados a respeito da realidade, sem os quais uma avaliação fidedigna por parte da população de seu trabalho não é possível. Mas outras vieram antes, como o constante descrédito de qualquer mídia que não lhe favoreça, ou de qualquer ciência que não lhe favoreça. Esse envenenamento do poço contra "tudo o que está aí" não é novidade na política americana nem na brasileira a um bom tempo, como bem podemos lembrar da pandemia de COVID19 e o negacionismo generalizado ao qual fomos submetidos em ambos os países.
A situação brasileira não é, portanto, tão diferente assim da americana. Vivemos em um governo Lula 3 que apresenta a cada dia, dados e mais dados favoráveis, fatos positivos qualificados pelos melhores institutos nacionais e internacionais, dos quais a saída do mapa da fome é apenas o mais recente. Porém, existem barreiras que parecem intransponíveis no caminho de uma melhora de aprovação do governo por parte da população. Mesmo tendo acertado em quase tudo no que se refere à crise contra o tarifaço imposto pelos EUA, a variação nos números em pesquisas de opinião foram tímidas, ainda que importantes pois revelam viradas para saldo positivo. Isso se dá, largamente, ao projeto de descrédito ao qual foram sujeitados tanto nossas instituições mais duradouras quanto o próprio presidente Lula e o PT. O envenenamento dos poços foi um projeto político tão bem executado que para uma fatia expressiva do Brasil é razoável se dizer patriota ao mesmo tempo que se coliga a uma potência estrangeira para causar mal ao seu próprio país.
É frente a isso que se impõe o desafio titular desse texto. Um desafio que não compete apenas ao governo Lula, mas também a qualquer um que se diga minimamente de esquerda, e especialmente àqueles que dizem se importar com a materialidade para a realização de seus projetos políticos. Pois, se mesmo um governo que atua de forma comedida, sempre muito atento as circunstâncias, enfrenta esse desafio, o desafio muito maior seria para um projeto mais ambicioso, seja reformista, seja revolucionário.
A exata receita para conectar novamente um integrante da sociedade à realidade pode não ser clara ou mesmo exata. O ato de convencimento passa por diversas formas e etapas, sejam elas racionais, emocionais ou até mesmo puramente estéticas. Contudo, pondo em perspectiva as possíveis mediações para a materialidade já citadas, existem caminhos que são evidentemente infrutíferos. Ou pelo menos infrutíferos no que se relaciona ao objetivo de fazer a materialidade importar, ainda que possam fazer ganhar "views" e "likes" nos tempos de rede social.
Um desses caminhos tortos é aproveitar toda chance para fazer coro no descrédito às instituições que a extrema direita promove. Sim, nenhuma instituição humana é ou jamais será "perfeita" e é passível de críticas. Todavia, se essas que estão aí forem demolidas no estado em que estamos, não são outras mais corretas e mais justas que se sucederão, visto que a segunda força do país e que está à espreita por essa derrocada é a sanha neofascista. É muito mais provável que a derrocada institucional provoque uma caída mais para a direita do que para o contrário.
Outra via que não resultará bem é a tentativa de substituir o petismo ou lulismo na esquerda tentando ser tão viciosamente antipetista quanto a extrema direita, mesmo que com uma retórica de coloração "vermelha". Primeiramente, pois há de se encarar a realidade que o governo Lula 3 tem sim números muito positivos, e tem tudo para ter muitos outros com o avançar do tempo. Ir contra essa realidade vai requerer exercer uma falsificação avessa à materialidade que muitos dizem levar em conta. De forma similar, tem-se de considerar também o efeito negativo que tal discurso provoca em quem hoje tem o governo como de confiança. Quem ataca o governo, ataca indiretamente quem gosta sinceramente dele, e se cria uma aversão natural ao crítico. Aversão essa que não se transformará magicamente em adoração, o que vai contra o objetivo de outros projetos de conquistar mais público à esquerda.
Pode-se também achar que anunciar a repetidamente a "morte da esquerda" fará magicamente todos se reunirem a uma nova versão fênix, cujo comando estará convenientemente sob o anunciante da morte. Essa expressão repetida a esmo tem custado a se tornar verdade e o fim provável será não o efeito pretendido, mas a saturação semântica.
É claro que novidades devem ser abraçadas na política, sempre que possível e sempre que for benéfico a todos. Porém, a qualidade de novidade não garante a qualidade de positividade. Assim, no atual momento, há de se considerar que a materialidade indica que as boas novidades estão vindo não de movimentos novos, ou velhos renomeados, mas de estruturas cujo tempo e a sorte têm testado uma vez e outra, e seguem firmes. E, para que novas forças um dia alcancem a altura que as forças de esquerda atuais estão, será preciso não se perder no objetivo da crítica pela crítica, ou da crítica pelo projeto de poder, principalmente se essa crítica for incapaz de avançar no problema político mais contundente hoje: existe grande parte da sociedade que simplesmente não age de acordo com os dados da realidade, e não há caminho para frente que não encare este fato com a seriedade que merece.
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